6 de fevereiro de 2016

GT – Bentos

Proposta de estudo de comunidades bentônicas

Nos últimos trinta anos, houve avanços significativos no conhecimento sobre os mecanismos de funcionamento dos ecossistemas aquáticos continentais. Esses recentes estudos têm demonstrado que os corpos hídricos são ecossistemas complexos e que requerem o conhecimento de diferentes áreas do conhecimento para um gerenciamento mais eficiente. Um dos pontos chaves para a gestão desses ecossistemas é a adoção de critérios adequados e rigorosos de monitoramento da qualidade da água para diagnosticar a situação dos recursos hídricos.

As metodologias tradicionalmente utilizadas, baseadas em parâmetros físicos e químicos, são apontadas como pouco eficientes para a avaliação da qualidade estética, recreativa e ecológica dos ecossistemas aquáticos (Buss et al. 2008). De modo a aumentar a eficiência do monitoramento e detecção dos impactos ambientais é fundamental a integração dos resultados bióticos com características biológicas dos ecossistemas. Esta abordagem chamada de monitoramento biológico ou biomonitoramento baseia-se em alterações na estrutura e composição da comunidade de organismos aquáticos.

Entre as comunidades que habitam os ecossistemas aquáticos, a bentônica é uma das mais diversificadas, pois nela são encontradas espécies de diversos filos do reino animal, desde protozoários até macroinvertebrados de grandes dimensões e também vertebrados (Wetzel & Likens, 1991). Esses organismos têm recebido gradativamente maior atenção nas últimas décadas, devido a sua importante participação nos processos ecológicos, particularmente no fluxo de energia e na ciclagem de nutrientes nos sistemas aquáticos. Por exemplo, eles desempenham papel na troca de fósforo e nitrogênio entre o sedimento e a água; e por meio da atividade de escavação e da decomposição da matéria orgânica, esses organismos reduzem o tamanho das partículas, contribuindo para a liberação de nutrientes do sedimento para a coluna d’água (Gardner et al. 1983; Fukuhara & Sakamoto, 1988).

Os argumentos para a utilização dos macroinvertebrados bentônicos como ferramenta biológica em programas de biomonitoramento são inúmeros tais como: são animais cosmopolitas e abundantes; são visíveis a olho nu; a maioria possui características ecológicas bem conhecidas; são sésseis ou com mobilidade restrita e, portanto, são representativos das condições locais; têm a vantagem de caracterizar a qualidade das águas não apenas no instante de sua coleta, mas refletindo também sua situação em um período de tempo mais longo; a concentração de substâncias tóxicas na biomassa corporal não é afetada por ciclos reprodutivos ou diferenças sexuais, uma vez que estes organismos inúmeras vezes são coletados enquanto formas imaturas de insetos aquáticos e semi-aquáticos; participam das cadeias alimentares e cadeia de detritos, podendo atuar como agentes vitais de entrada de metais pesados ou outros contaminantes nas cadeias alimentares aquáticas (Moreno & Callisto, 2005).

Com base nos princípios expostos acima, o sub GT Bentos, formado por especialistas em comunidades bentônicas e qualidade da água, tem por objetivo gerar dados científicos que possam auxiliar na caracterização dos impactos ambientais gerados pela lama de rejeito da Mineração da SAMARCO.

A equipe de trabalho irá percorrer as áreas afetadas pela lama de rejeito da Mineradora Samarco recolhendo amostras de sedimento para análise da macrofauna bentônica. Tendo em vista a impossibilidade de se fazer amostragens controle (antes da tragédia), também serão realizadas coletas em afluentes do Rio Doce e a montante do Rompimento da Barragem.

Atividades a serem desenvolvidas

Para realização do projeto serão executadas as seguintes atividades:

  1. Coleta dos macroinvertebrados em campo;
  2. Triagem e identificação dos organismos em laboratório;
  3. Análise dos dados bióticos obtidos pelo GT de Limnologia e Comunidades Aquáticas, e biológicos com aplicação de ferramentas estatísticas.

Metodologia de coleta de macroinvertebrados bentônicos e tratamento dos dados

Em cada ponto de coleta serão obtidos 5L de sedimento com auxílio de um pegador do tipo Ekman, Petersen ou com um Corer de PVC, dependendo da viabilidade de utilização de acordo com o tipo de substrato. Será realizada uma lavagem inicial das amostras no campo com uma rede de malha de 250 µm. O sedimento restante de cada amostra será acondicionado em frascos de polietileno, etiquetados, fixados com álcool 70% ou formol tamponado 4%, e transportado para o laboratório. No laboratório, o sedimento será lavado com o auxílio de duas peneiras acopladas de 1 mm e de 250 µm, e triado em bandejas plásticas brancas e/ou translúcidas sobre uma caixa com iluminação fluorescente para facilitar a visualização (bandeja transiluminada). Os invertebrados serão, posteriormente, fixados em álcool 70%.

Serão realizadas análises da comunidade bentônica com identificação dos taxa presentes e posterior cálculos de índices de Diversidade, Riqueza, Uniformidade, Abundância Relativa, além de outros índices que se julguem pertinentes no decorrer das análises, que somados possam contribuir para a avaliação da magnitude do impacto gerado. Especialistas serão consultados para identificação em menor nível taxonômico possível.

A periodicidade e os pontos de coleta serão determinados pelo GT Limnologia e Comunidades Aquáticas dependendo da viabilidade de realização das mesmas.

Material de coleta para Bentos:

Draga Ekman/Petersen/ Corer (tubo de PVC adaptado)
Frascos de polietileno (ideal) ou sacos plásticos
Formol
Rede de 250 µm
Balde

Bibliografia

BUSS, D. F.; OLIVEIRA E. B. & BAPTISTA, D. F. 2008. Monitoramento biológico de ecossistemas aquáticos continentais. Oecologia Brasiliensis, 12(3): 339-345.

FUKUHARA, H. & SAKAMOTO, M. 1988. Ecological significance of bioturbation of zoobenthos community release from bottom sediment in shallow eutrophic lake. Arch. Hidrobiol., 113(3): 425-445.

GARDNER W.S.; NALEPA, T.F.; SLAVENS, T.R. & LAIRD, G.A. 1983. Patters and rates of nitrogen release by benthic Chironomidae and Oligochaeta. Canadian Journal of Fisheries Aquatic Sciences, 40: 259-266.

MORENO P. & CALLISTO M. 2005. Bioindicadores de qualidade de água ao longo da Bacia do Rio das Velhas.

http://150.164.90.128/assets/files/Biblioteca_Virtual/MorenoeCallisto-202005-EMBRAPA.pdf

WETZEL, R.G. & LIKENS, G.E. 1991. Limnological Analyses. 2nd ed. Springer-Verlag: New York, 391p.